Meus olhos não aguentam tanta tristeza,
De ver o nordeste assim tão humilhado,
O campesino perdendo todo o gado,
Sem o inverno, sertão não tem beleza,
Nunca mais se viu tanta moleza,
Só com chuva fica bom o meu torrão,
Hoje é que sinto o desprezo da nação,
Terra nordestina esturricando,
São dois anos de seca castigando,
As famílias sofridas do sertão.

Não há barra de chuva no nascente,
Fica o homem do campo encabreado,
Por sentir que tá dando tudo errado,
Não se escuta trovão do horizonte,
O inverno está muito distante,
Vendo caveira de gado pelo chão,
Não achando quem lhe preste atenção,
Com o povo forte se acabando,
São dois anos de seca castigando,
As famílias sofridas do sertão.

Do matagal não se ouve a passarada,
Que no alvorecer faz a sua festança,
Rangido só da rede que balança,
Do cantar da cigarra entoada,
Não mais vendo a terra orvalhada,
Chora o velho com o chapéu na mão,
E com fé no rádio ouve um sermão,
Vendo o tempo de chover já se findando,
São dois anos de seca castigando,
As famílias sofridas do sertão.

Buscando diminuir seu drama,
O agricultor faz sua pesquisa,
Não crê em homem que profetisa,
Pois no céu não há bom panorama,
Com sol ou chuva há muita trama,
Dos corruptos que vivem de plantão,
Que desviam os recursos de montão,
Dum esquema que vive só mamando,
São dois anos de seca castigando,
As famílias sofridas do sertão.

Aristóteles Santos Pessoa (Doutor Tota)