Nas
minhas andanças por este sertão seco, esturricado, vou percebendo, aos poucos,
que os clamores dos pobres, a cada dia que passa, vão tornando-se ensurdecedor.
E o pior, esse grito pungente é ignorado, tratado com desdém. É como se o
paciente, com uma doença grave, contorcendo-se de fortes dores, pedisse socorro
ao médico, mas nada de socorrê-lo, causando no doente uma forte sensação de
abandono, de esquecimento e de morte lenta.
Falo
com conhecimento de causa. Falo porque vejo e ouço. Nada de sensacionalismo ou
demagoguíssimo. Ando muito pela zona rural e periferia das cidades sertanejas. Dentro
de casa, em baixo de árvores, sentado nas calçadas, ou em qualquer lugar,
converso demoradamente com os sertanejos. Ouço o que eles dizem. Nada falo,
apenas ouço. E é ouvindo esses sofridos filhos de Deus, que me vem o
questionamento: onde estão os cristãos? Onde estão aqueles que tanto pregam o
amor, a solidariedade, a justiça, o evangelho? Onde estão os governantes?
Enfim, Por que não nos sensibilizamos com as dores dos irmãos em Cristo? Por
que o grito dos injustiçados, dos excluídos, dos marginalizados não é ouvido e
levado em consideração pela sociedade, pelos cristãos e governantes?
Parece
que todos estão com excesso de cera nos ouvidos. O povo grita, mas ninguém
ouve. Todos estão surdos, menos Deus. Aliás, a esperança dos pobres está em
Deus, como o próprio salmo 34, versículo 6, diz: “Clamou este pobre, e o Senhor
o ouviu, e o livrou de todas as suas angústias”.
Percebo
que os pobres estão ficando revoltados, indignados, não só com os políticos,
mas também com seus líderes religiosos. Isso, para mim, já é notório. Suas
falas são recheadas de muita comoção e revolta, repito. Não há como esconder
essa verdade.
Vejam
o que o povo fala sobre seus sofrimentos, suas dores, seus desesperos e
angústias:
-Seu
padre, a gente fala, pede, mas não adianta falar, ninguém quer ouvir a gente.
-Falar
pra quê, se não adianta nada? Eu já falei, implorei, e não vi ajuda de ninguém,
a não de Deus.
-Conheço
pessoa que não reza, não vai à igreja e muito melhor do que essas pessoas que
só vivem rezando. É melhor não ser nada.
-Só
Deus pra ter piedade de nós. Só ele olha pra os pobres desta comunidade.
-É,
Deus quer assim mesmo, então pra que falar, gritar, se ele quer que a gente
seja assim. Vamos morrer assim mesmo, é vontade dele.
-O
que adianta viver na igreja, rezar, e não olhar para os pobres?
-Padre,
me perdoe, mas o que tem de gente da sua igreja rezando e tem raiva de pobre
não é brincadeira.
-Padre,
eu não acredito mais em ninguém. A gente morre e ninguém se compadece da gente.
Nem Padre, nem Pastor, nem governo, nem nada. A gente tá é abandonada mesmo. Só
Deus por nós.
-Na
minha casa não anda Padre. Nunca o Padre andou na minha casa para saber como
vai a nossa vida. É isso mesmo, só porque a gente é pobre, miserável.
-A
nossa situação não é boa mesma. Apesar da bolsa família, falta tudo na nossa
casa. Veja Padre, a nossa situação. Vivemos pobres mesmos. Não temos nada
-A
gente não vê ninguém falar por nós. Cadê os Padres, os Pastores, o povo da
igreja? Essa gente só sabe mesmo é rezar e pedir dinheiro. Isso sabe. Não medo
de dizer a verdade.
_Esses
políticos não querem saber da gente não, eles só querem da gente o nosso voto.
E acabou.
-Tá
pensando que na nossa casa anda prefeito, vereador, deputado, senador? Anda
breu. Essa cambada de políticos só vem aqui pedir nosso voto em tempo de
eleição
-A
gente morre e não aparece um pé de pessoa aqui. Eita mundo desmantelado. Triste
de quem é pobre.
-Sei
não, antigamente ainda tinha pessoa da igreja que dava uma palavra por nós,
hoje, é muita reza, louvor, e nada de ação
-Padre
Djacy, eu conheci as Cebs, comunidades eclesiais de bases, lá, a gente podia
falar, o Padre deixava a gente falar da nossa situação, da nossa carência, da
nossa pobreza.
-Ta
faltando gente pra nos defender. Ninguém fala por nós, dá uma palavra por nós,
ninguém mesmo.
-Padre,
pobre só tem valor no dia da eleição. Nesse dia se ele grita, seu grito é
ouvido.
-A
gente não vê ninguém falando por nós. Se a gente liga o rádio, só fala em
eleição e eleição. Candidato tal vai apoiar candidato tal, e a gente se
lascando nesse sofrimento danado.
-Enquanto
a gente passa todo tipo de privação, os políticos estão pensando é nas eleições
do próximo ano. Eles não estão nem aí com o sofrimento do povo pobre. Tenho
certeza
Padre,
eu não acredito mais em ninguém. Nem em prefeito, vereador, deputado, em
ninguém, em ninguém. Só acredito em Deus, que é nosso verdadeiro pai.
-Eu
não vejo ninguém da igreja nos defender. É a gente sofrendo, passando fome,
sede e ninguém, nem Padre, nem pastor falar por nós. Eles sabem mesmo é pedir
dinheiro. Isso eles sabem bem direitinho. Não tenho medo de dizer, estou
falando a verdade.
-Padre,
no tempo da ditadura militar, eu era do sindicato rural, naquele tempo, eu me
lembro, tinha um bispo que se chamava dom Hélder, pense num bispo que gritava
em defesa dos pobres? Ele era bem baixinho, mas não tinha medo de defender os
trabalhadores.
-Sei
não, nunca vi tanto pecado de omissão. Ninguém se compadece do nosso
sofrimento, das nossas dificuldades...
-Eu
penso que o padre, seja quem for, viver pensado somente em enfeitar ou
embelezar a igreja, deveria pensar em primeiro lugar no seu rebanho, que vive
sofrendo ,passando fome, sede e, sei lá, tantas dificuldades na nossa vida.
-Eu
penso que Jesus, antes de bater palmas pra ele, ele quer mesmo é que socorram
seus irmãos necessitados. Eu já li isso na Bíblia. Eu já li.
-Olha
Padre, antigamente tinha gente que ia pra rua gritar em defesa de justiça, de
moradia, de emprego, hoje, acabou isso. Cada um no seu mundo...
-Pobre
é ouvido em tempo de eleição. Nesse tempo, os políticos vêm a nossa casa, aí a
gente fala, e eles só anotando, e dizendo: sim, sim, sim, sim. É mesmo, é
mesmo, deixe comigo, deixe comigo, deixe comigo. Eu vou resolver seu problema,
pode acreditar. Depois me procure, depois me procure. Quando passa a eleição,
eles dão o pé na nossa bunda.
_A
gente tá no mato sem carro. Não temos pra onde correr. A gente não tem ninguém
por nós, pra olhar pra nós.
Com
relação à Igreja, o Papa Francisco usa um tom profético, e com firmeza, na sua
nova Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”:
“Para
a Igreja, a opção pelos pobres é uma categoria teológica antes de sociológica.
Por isso peço uma Igreja pobre para os pobres”.
“Qualquer
comunidade dentro da Igreja” que se esquecer dos pobres corre o “risco de
dissolução”.
Com
essas palavras, o Papa Francisco espera que os católicos, com seus pastores,
sejam verdadeiros profetas em defesa dos pobres, a exemplo dos profetas do
Antigo Testamento e do próprio Jesus Cristo, o Profeta da libertação, da vida:
“eu vim para que todos tenham vida”.
Na
fé, no amor e na luta. Avante!



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